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Mensagens do blog por ADRIANO PARANAIBA

A Grande Aposta: um bom filme e uma péssima mensagem

A Grande Aposta: um bom filme e uma péssima mensagem

por Sergio Alberich

"De fato, governos podem reduzir a taxa de juros no curto prazo. Podem imprimir mais papel moeda. Podem abrir a porta para a expansão creditícia dos bancos. Portanto, eles podem criar um boom artificial e uma aparência de prosperidade. Mas esse crescimento está fadado a, mais cedo ou mais tarde, colapsar e trazer consigo uma depressão" - Ludwig von Mises.

 

Em 2016 fui ao cinema para assistir A Grande Aposta (The Short Big) e quando saí não conseguia parar de pensar no filme o Bom, o Mau e o Feio (The Good, the Bad and the Ugly) do diretor Sergio Leone. Não quero dizer que o enredo que o faroeste dos anos 60, estrelado por Clint Eastwood, tenha muito a ver com a crise financeira de 2008 interpretada por Steve Carell, Ryan Gosling, Christian Bale e Brad Pitt. O que acontece é que o antigo título perfeitamente resume meus pensamentos sobre o novo filme.
 
Como em muitos dos livros e artigos de Michael Lewis, o enredo é centrado em interessantes e profundos personagens que fazem com que um tópico chato e frio como o crash financeiro se torne uma cativante forma de entretenimento. A performance dos atores é boa e embora possa ser um pouco exagerada e teatral em muitas ocasiões, se encaixa perfeitamente com o ritmo e o estilo da narrativa. Além disso, o diretor Adam McKay (conhecido por alguns filmes do Will Ferrell) faz um ótimo trabalho ao explicar de forma clara e simples os produtos financeiros (títulos garantidos por hipotecas, MBS por sua sigla em inglês; obrigações garantidas por dívida, CDOS em inglês; CDOs sintéticos...) que são comumente associados com a crise de hipotecaria, mas que raramente são compreendidos.
 
Mesmo assim, as coisas que me remeteram ao bom, ao mau e ao feio não estão relacionadas aos aspectos que acabo de me referir, e menos ainda com os detalhes técnicos que muitos críticos de cinema normalmente focariam. O bom é a extraordinária ilustração de espírito empreendedor, o mau tem a ver com detalhes que a narrativa deixa de lado (a falta de uma explicação clara das razões que levaram à crise) e o feio, o lado muito feio do filme, é a equivocada noção que fica ao público de que a solução para tudo era mais regulamentação. Que isso teria impedido a crise de 2008 e feito com que as coisas estivessem muito melhores nos dias de hoje.
 
A representação do empreendedorismo é bela e fascinante. Michael Blurry (o personagem interpretado por Bale) lendo planilhas, concebendo uma estratégia de ação e convencendo os bancos a vender-lhe os swaps financeiros é impressionante. Mark Baum (Carell) e sua equipe investigando o mercado hipotecário na Flórida e em Las Vegas, conversando com strippers, corretores de hipoteca, agências de rating de gestores de fundo de investimentos é a lição de casa que deviríamos esperar de qualquer investidor-empreendedor responsável. A maneira rápida com que Vennett (Gosling), ao dar-se do que Blurry está fazendo, corre para encontrar a sua forma de fazer a mesma aposta é um grande exemplo de criatividade empresarial. E os dois jovens gestores que unem forças com Rickert (Pitt) e encontram ainda outra maneira de ir em contra a bolha imobiliária, ilustram a pura ação empreendedora que vai em contra o comumente aceito (contrarian investors). Enquanto cada um deles toma uma rota distinta (cada um lidando e superando suas próprias particularidades) para se posicionar contra o mercado de hipotecas subprime (short sell), todos encaram duras críticas de seus colegas (e de seus chefes e investidores), enfrentam muitas dificuldades para executar seus planos (que mostra que é não só a ideia, mas também a sua execução - a ação empresarial) e indiretamente ajudam a dar um fim a uma situação insustentável (quanto mais tempo dura a bolha, pior é o seu estouro).
 
O fato de os que vendem a descoberto (short sellers – apostam na queda do preço dos ativos), geralmente demonizados pela imprensa, são os heróis da história é um dos principais pontos positivos do filme. Muito acertadamente, é deixado claro que estes empreendedores não apenas criaram e transmitiram novas informações, mas que eles também, através de suas ações individuais, ajudaram a coordenar um mercado que necessitava desesperadamente de coordenação. Sem dúvida, um valioso serviço à sociedade.
 
Além disso, o fato de que esses personagens foram retratados como gente normal, trabalhando entre outras pessoas e compartindo suas ideias (muitas vezes sendo ridicularizados por seus ouvintes), ao invés de átomos isolados que tem acesso a dados únicos, deve fazer qualquer questionar o mundo de ponta cabeça do pensamento econômico e financeiro mainstream. Um paradigma que exclui o empreendedor de suas teorias, reduz a ação humana a maximização de equações conhecidas, deixa de lado o mundo em constante mudança que habitamos para poder aceitar modelos estáticos e trata a informação como um dado completamente objetivo e onipresente.
 
Com sorte, a próxima vez que alguém ler um artigo no jornal, ouvir um político ou receber relatórios de investimento que centrem suas análises nos Modelos de Concorrência Perfeita, na Hipótese do Mercado Eficiente (EMH por sua sigla em inglês) ou na Teoria Moderna de Portfólio (MPT por sua sigla em inglês), este lembrará dos heróis de A Grande Aposta e será bastante cético com as conclusões apresentadas (nenhuma dessas três teorias pode antecipar o colapso financeiro e nenhuma pode sequer explicar as causas da crise).
 
Sim, o lado bom do filme é incrivelmente bom e permite uma ampla variedade de pensamentos, mas ainda assim é difícil pensar que o resultado final seja positivo. Não haver explicado as reais causas da crise é uma falha significativa que poderia ter sido ignorada não fosse pela mensagem deixada de que, de uma maneira ou de outra, tudo teria sido evitado se não houvesse tanta ganância e tanta falta de regulamentação.
 
Primeiro de tudo, e parafraseando Tom Woods, culpar a crise hipotecaria na ganância humana é o mesmo que dizer que a gravidade é a responsável pela queda de algum avião. O que temos de entender é porque tantas pessoas, inteligentes e tolas, boas e más, egoístas e generosas, cometeram os mesmos erros (certamente que empreendedores e investidores erram, mas por que todos erraram e ao mesmo tempo e no mesmo lugar? Porque todos ignoraram riscos tão evidentes?). E porque estes erros se concentraram no mercado imobiliário?
 
Em segundo lugar, acusar a falta de regulamentação como o grande vilão da história parece total desconhecimento dos fatos. A partir do momento em que a dita  "desregulamentação" dos mercados financeiros começou no início dos anos 80 até o estouro da bolha imobiliária, os órgãos reguladores dos EUA tiveram seus orçamentos multiplicados por 3 (em dólares constante - apenas a SEC, retratada no filme como uma agência reguladora com poucos recursos, aumentou seu orçamento em quase 500% no período, ajustado pela inflação, atingindo quase US$ 1 bilhão em 2008) e ocorreram 4 novas medidas regulatórias para cada medida desregulatória no mesmo período. Além disso, no momento da crise, havia cerca de 12 mil burocratas trabalhando na regulamentação financeira – somente em Washington-DC! -, enquanto pelo menos 115 agências regulatórias supervisionavam o mercado financeiro em todo os Estados Unidos (Woods/ThorntonMurphySEC e Boettke/Horwitz).
 
Falta de regulamentação? Sério?
 
O que faltou ao filme foi mencionar que o Federal Reserve (FED — que não é uma instituição do livre-mercado) manteve as taxas de juros extremamente baixas com o propósito de promover uma expansão creditícia artificial que acabou por financiar uma seria de péssimos investimentos. Também esqueceu de discutir o papel desempenhado por Fannie Mae e Freddie Mac (empresas patrocinadas pelo governo, que tampouco fazem parte do livre-mercado) ao prover liquidez para todo mercado de CDOs, MBS e os CDOs sintéticos (basicamente, sempre havia um comprador para esses ativos tóxicos de alto risco). Além disso, é completamente omitido o fato de que a regulamentação financeira exigia que as grandes Agências de Rating auferissem notas a tais títulos (eficazmente dando a estas empresas o poder de oligopólio) e que os bancos eram obrigados a conceder hipotecas a indivíduos com baixo credito (Community Reinvestment Act).
 
Com isto fica mais fácil de compreender a grande recessão de 2008. Podemos finalmente começar a entender por que tantos e absurdos empréstimos ocorreram. Por que tanta gente com histórico de crédito ruim e falta de renda, empregos e meios para dar qualquer tipo de entrada, facilmente recebia hipotecas tão baratas. Por que as agências de rating agiram de maneira imoral e irresponsável. Por que os bancos não estavam preocupados em vender quantidades enormes de empréstimos podres que haviam concedido e, sobretudo, porque o estouro da bolha era inevitável.
 
Apontar as falhas do filme é importante pois hoje em dia é comum aceitar que tudo o que foi dito, pensado e feito (por aqueles encarregados pela política econômica) em nome de nos resgatar das profundezas desta última crise tem algum mérito. A maioria pode até chegar a questionar alguns dos irrelevantes detalhes dos resgates financeiros (bailouts), das novas regulamentações, das políticas de juros zero (ZIRP por sua sigla em inglês) e dos programas Q.E. (um eufemismo de moda para o bom e velho "imprimir dinheiro"), mas poucos se atrevem a questionar a validade e a eficácia de tais políticas.
 
Interpretar o estouro da bolha imobiliária pelo que realmente aconteceu, o fracasso das políticas governamentais de dinheiro fácil, e não essa equivocada noção endossada por A Grande Aposta, uma falha do livre-mercado, é um passo importante rumo a uma economia saudável (algo que claramente não temos atualmente). Mais especificamente, isto nos faz menos suscetíveis a engolir as confusas explicações dos economistas keynesianos, a tratar seriamente as irresponsáveis propostas regulatórias para realizar "ajustes finos na economia", ou a acreditar que há algo mais do que a incapacidade de coordenar e a capacidade de destruir no planejamento central econômico.  

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